Camilla Garcia

Nutricionista

A relação da criança com a comida começa muito antes de ela se sentar à mesa. Essa afirmação pode parecer surpreendente para algumas famílias, especialmente para aquelas que enfrentam desafios com a alimentação infantil. Mas a verdade é que o vínculo com os alimentos vai sendo construído dia após dia, nas pequenas experiências, nas palavras que são ditas e nas sensações que a criança vive ao longo do tempo.

Muito além do prato

Muitos pais e responsáveis acreditam que o momento da refeição é o único espaço de aprendizado alimentar. No entanto, essa é apenas uma parte da jornada. A forma como os adultos se relacionam com a comida, as reações diante das recusas, os comentários feitos à mesa e até a organização do ambiente influenciam profundamente a maneira como a criança percebe o comer.

Antes mesmo de experimentar um alimento, ela já teve contato com ele de outras formas: ao ver os pais cozinhando, ao ouvir que “espinafre faz bem”, ou até ao sentir o cheiro de um tempero novo no ar. Tudo isso constrói memórias sensoriais que moldam sua relação com a comida.

Quando a insistência vira rejeição

É comum ouvir frases como: “Come só mais uma colher!”, “Se não comer, não vai ganhar sobremesa!”, ou “Você tem que comer tudo para ficar forte!”. Embora essas falas partam de uma intenção positiva – garantir que a criança se alimente bem – elas podem acabar surtindo o efeito oposto.

Forçar uma criança a comer algo que ela ainda não conhece ou com o qual não se sente segura pode gerar medo. E o medo é um dos grandes inimigos do prazer alimentar. Comer, que deveria ser uma experiência prazerosa, vira motivo de tensão, desconforto e até de choro. A cada tentativa forçada, o alimento rejeitado pode se transformar em um símbolo de angústia e resistência.

É possível fazer diferente?

Sim! Ao invés de tornar o momento da refeição uma batalha, é possível ressignificá-lo como uma oportunidade de aprendizado, afeto e descobertas. E isso começa ao olhar para a alimentação como um processo, e não como uma obrigação.

Estimular o contato com os alimentos de forma lúdica e gentil pode fazer toda a diferença. Permitir que a criança toque os alimentos, sinta os cheiros, participe do preparo das refeições e tenha autonomia para explorar novas texturas e sabores, são atitudes que contribuem para que ela se sinta segura e curiosa.

O papel da terapia alimentar

Em muitos casos, a seletividade alimentar não está relacionada a “birra” ou falta de apetite. Ela pode envolver questões sensoriais, dificuldades de regulação emocional, experiências negativas anteriores ou até condições específicas do desenvolvimento.

É aí que entra a terapia alimentar. Diferente da simples exposição ao alimento, ela trabalha de forma interdisciplinar, com nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros profissionais, para entender as causas da dificuldade e criar estratégias individualizadas.

O objetivo não é fazer a criança comer a qualquer custo, mas ajudá-la a construir uma nova relação com os alimentos: mais segura, prazerosa e positiva. Isso envolve tempo, paciência, planejamento terapêutico e muito acolhimento.

A importância do afeto e do respeito

A alimentação é, acima de tudo, um ato afetivo. Desde o nascimento, o bebê associa o alimento ao aconchego, ao cuidado, à proteção. Manter esse vínculo emocional ao longo da infância é essencial para que o comer continue sendo uma experiência agradável.

Por isso, respeitar o tempo da criança, suas preferências e seus limites é uma forma de demonstrar amor. Cada pequena conquista, seja tocar em um alimento novo, aceitar tê-lo no prato ou provar uma pequena quantidade, deve ser celebrada. Afinal, o progresso acontece no ritmo de cada um.

E quando a frustração bate?

É normal que os pais e responsáveis se sintam frustrados, preocupados ou até impotentes diante de um filho que se recusa a comer determinados alimentos. Mas é importante lembrar: não é culpa sua. A seletividade alimentar é mais comum do que parece, e buscar ajuda especializada é um sinal de cuidado e responsabilidade.

Transformar a alimentação em uma jornada prazerosa é um caminho que exige envolvimento, mas os resultados podem ser transformadores, tanto para a criança quanto para toda a família.

Menos pressão, mais conexão

Ao trocar a pressão por acolhimento, a insistência por escuta e o controle por confiança, abrimos espaço para uma relação muito mais saudável com a comida. Crianças que se sentem seguras são mais abertas a experimentar, explorar e desenvolver uma alimentação mais variada.

Lembre-se: o caminho para uma alimentação saudável não é feito de imposições, mas de vínculos positivos, respeito e experiências significativas. E se esse processo parecer desafiador demais, você não está sozinho, a terapia alimentar pode ser uma grande aliada nessa jornada.

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