

Larissa Simões
Coordenadora do Projeto Interdisciplinar do Núcleo de Autismo
Você já percebeu que o seu filho reclama muito de frio mesmo quando outras pessoas parecem confortáveis? Ou, ao contrário, parece não perceber temperaturas baixas e resiste a usar casacos e cobertas?
Quando falamos sobre autismo e frio, é importante entender que muitas crianças com TEA podem apresentar diferenças na percepção sensorial, inclusive em relação à temperatura.
Essas reações não são “manhas” ou exageros. Muitas vezes, essas respostas comportamentais estão relacionadas a diferenças no processamento sensorial e na percepção corporal.
Para os pais e responsáveis, compreender essa relação pode ajudar a reduzir desconfortos, evitar crises e promover mais bem-estar no dia a dia da criança e da família.

O que a percepção sensorial tem a ver com o autismo?
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) está frequentemente associado a alterações no processamento sensorial. Isso significa que o cérebro pode interpretar sons, luzes, cheiros, texturas e temperaturas de maneira diferente.
Algumas crianças com TEA apresentam hiperresponsividade sensorial, percebendo estímulos de forma muito intensa. Outras podem ter hipossensibilidade, ou seja, menor percepção ou resposta reduzida a estímulos específicos.
Essas diferenças podem aparecer de várias formas
Maior desconforto com temperaturas baixas
Dificuldade para tolerar roupas pesadas
Sensação exagerada de frio
Pouca percepção térmica
Irritabilidade em ambientes frios
Resistência ao banho ou troca de roupas
Cada criança com autismo é única. Por isso, o seu filho pode reagir de maneira diferente de outras crianças no espectro.
Crianças com autismo podem sentir mais frio?
Sim, algumas crianças com TEA podem demonstrar maior sensibilidade ao frio. Isso acontece porque o sistema nervoso pode interpretar as mudanças de temperatura de maneira mais intensa.
Em alguns casos, o frio pode causar
Desconforto físico importante
Irritação
Aumento da ansiedade
Dificuldade de concentração
Alterações no sono
Crises sensoriais
Além disso, tecidos específicos, vento, roupas molhadas ou mudanças bruscas de temperatura também podem gerar grande incômodo.
É comum que famílias percebam que o filho
Pede mais cobertas
Evita pisos gelados
Reclama ao entrar em ambientes com ar-condicionado
Fica mais irritado em dias frios
Prefere roupas muito específicas
Esses sinais podem estar relacionados à sensibilidade sensorial.
Algumas crianças com TEA parecem não sentir frio
Enquanto algumas crianças no espectro demonstram hipersensibilidade, outras parecem não perceber o frio adequadamente.
Nesses casos, a criança pode
Recusar casacos mesmo em temperaturas baixas
Querer tomar banho frio
Não perceber que está com o corpo gelado
Brincar normalmente em ambientes frios
Ter dificuldade para identificar sensações corporais
Esse padrão pode estar relacionado à hiporresponsividade sensorial, impactando a percepção corporal e térmica.
Por isso, é importante observar o comportamento do seu filho sem comparações e lembrar que nem toda resposta comportamental atípica deve ser interpretada como oposição voluntária ou recusa intencional.
Como o frio pode impactar o comportamento do seu filho?
Muitas vezes, alterações comportamentais têm relação direta com desconfortos sensoriais.
Quando a criança está incomodada com o frio, ela pode apresentar
Irritabilidade
Agitação
Maior rigidez comportamental
Dificuldade para realizar atividades
Choro frequente
Aumento de crises
Necessidade maior de regulação emocional
Em crianças com autismo que têm dificuldade de comunicação, o desconforto pode aparecer através do comportamento, já que elas nem sempre conseguem explicar o que estão sentindo.
Por isso, observar padrões faz diferença. Perceber se determinados comportamentos aumentam em dias frios ou em ambientes gelados pode ajudar a identificar gatilhos sensoriais.
Roupas podem causar desconforto sensorial
Muitas crianças com TEA apresentam sensibilidade tátil, o que pode tornar algumas peças extremamente desconfortáveis. Etiquetas, costuras, tecidos grossos ou roupas apertadas podem gerar irritação intensa.
Isso pode fazer com que seu filho
Retire o casaco rapidamente
Chore ao trocar de roupa
Recuse determinados tecidos
Tenha dificuldade para aceitar roupas de inverno
Nesses casos, adaptar as escolhas pode ajudar bastante.
Algumas estratégias incluem
Retirar etiquetas
Optar por tecidos macios
Evitar peças muito apertadas
Permitir que a criança participe da escolha das roupas
Testar camadas leves em vez de roupas muito pesadas
Pequenas adaptações podem reduzir o estresse e tornar a rotina mais confortável.
Como ajudar o seu filho nos dias frios?
Cada criança no espectro possui necessidades específicas, mas algumas estratégias podem ajudar a tornar os dias frios mais tranquilos.
Observe os sinais do seu filho
Preste atenção em mudanças de humor, irritabilidade ou desconfortos físicos. Muitas vezes, o comportamento pode indicar que a criança está incomodada com a temperatura.
Evite mudanças bruscas de temperatura
Ambientes muito gelados podem gerar desconforto sensorial. Sempre que possível, faça transições graduais entre locais quentes e frios.
Respeite os limites sensoriais
Nem sempre insistir em uma roupa específica será a melhor solução. Buscar alternativas mais confortáveis costuma trazer melhores resultados.
Crie previsibilidade
Avisar previamente sobre mudanças de roupa, banho ou saída de casa pode ajudar seu filho a se preparar emocionalmente.
Busque ajuda profissional
As questões sensoriais podem impactar diretamente a rotina, o bem-estar e a qualidade de vida da criança.
O acompanhamento especializado ajuda a identificar gatilhos, compreender necessidades específicas e desenvolver estratégias individualizadas para o seu filho.
Além disso, o suporte adequado também auxilia a família a lidar com os desafios do dia a dia com mais segurança e acolhimento.
Núcleo de Autismo no Espaço CEL
No Espaço CEL, contamos com um núcleo exclusivo voltado ao cuidado de crianças e adolescentes com TEA.
Nossa equipe interdisciplinar atua de forma individualizada, considerando as necessidades sensoriais, comportamentais e emocionais de cada paciente, sempre com foco no desenvolvimento, bem-estar e qualidade de vida.
Acreditamos que compreender como o seu filho percebe o mundo é um passo importante para promover mais acolhimento, conforto e autonomia em sua rotina.


