

Larissa Simões
Coordenadora do Projeto Interdisciplinar do Núcleo de Autismo
Ver seu filho chegar à adolescência costuma despertar muitas dúvidas. Afinal, essa é uma fase marcada por transformações físicas, emocionais e sociais que fazem parte do desenvolvimento de qualquer jovem.
No caso do adolescente com autismo, essas mudanças também acontecem, mas podem trazer desafios específicos.
Alterações hormonais, aumento das demandas sociais, acadêmicas e de autonomia, somadas às transformações físicas e emocionais dessa fase, podem tornar algumas dificuldades mais evidentes ou exigir novas estratégias de adaptação e suporte.

O que muda no autismo durante a adolescência?
A adolescência representa um período de intensas mudanças no cérebro e no corpo. Além das transformações hormonais, surgem novas responsabilidades, expectativas sociais e desafios relacionados à construção da identidade.
Para adolescentes com autismo, essas mudanças podem ser percebidas de maneiras diferentes. Alguns jovens passam a demonstrar maior sensibilidade aos estímulos do ambiente, enquanto outros apresentam alterações no comportamento, na comunicação ou na forma de lidar com as emoções.
Cada adolescente é único. Por isso, não existe uma única forma de vivenciar essa etapa.
Quais sinais podem aparecer nessa fase?
É importante lembrar que nem toda mudança significa um problema. Ainda assim, alguns comportamentos merecem atenção quando se tornam frequentes ou passam a interferir no bem-estar do adolescente.
Entre eles, estão:
Maior isolamento social
Dificuldade para expressar emoções e sentimentos
Crises comportamentais mais frequentes ou mais intensas
Aumento da sensibilidade a sons, luzes, cheiros ou ambientes movimentados
Maior resistência a mudanças na rotina
Ansiedade diante de situações novas ou imprevisíveis
Perda ou redução significativa de habilidades que já faziam parte do repertório do adolescente
Muitas vezes, esses comportamentos não acontecem por “teimosia” ou falta de interesse. Eles podem ser uma forma de comunicar que algo está difícil de compreender, processar ou enfrentar.
Cada comportamento comunica uma necessidade
Uma das mudanças mais importantes na forma de compreender o autismo é deixar de olhar apenas para o comportamento e buscar entender o que existe por trás dele.
Quando um adolescente apresenta uma crise, evita determinadas situações ou demonstra irritação com frequência, vale a pena perguntar: o que ele está tentando comunicar?
Em muitos casos, o comportamento pode estar relacionado à sobrecarga sensorial, à dificuldade para identificar e expressar emoções, ao medo de mudanças, à ansiedade ou até mesmo ao cansaço provocado pelas exigências do dia a dia.
Ao compreender a origem desses comportamentos, torna-se possível responder de maneira mais assertiva, reduzindo conflitos e fortalecendo estratégias que favoreçam o desenvolvimento do adolescente.
Como os pais podem ajudar nessa fase?
Embora a adolescência seja marcada pelo desejo de independência, o apoio da família continua sendo essencial. Os cuidadores sempre serão aqueles que melhor conseguirão acessar esse adolescente.
Algumas atitudes podem fazer diferença no dia a dia.
Mantenha uma rotina previsível
Mesmo que a adolescência traga mudanças naturais, manter uma organização da rotina ajuda o adolescente a antecipar acontecimentos e reduz a ansiedade diante do inesperado.
Sempre que possível, comunique mudanças com antecedência e explique o que irá acontecer.
Acolha as emoções
Nem sempre o adolescente conseguirá explicar o que está sentindo.
Em vez de interpretar determinadas reações apenas como desafio ou oposição, procure validar seus sentimentos e oferecer um espaço seguro para que ele possa se expressar, respeitando sua forma de comunicação.
Observe possíveis sobrecargas sensoriais
Ambientes muito barulhentos, iluminação intensa, excesso de pessoas ou mudanças bruscas podem gerar desconforto significativo para alguns adolescentes com autismo.
Identificar esses gatilhos ajuda a adaptar situações do cotidiano e prevenir crises.
Incentive a autonomia de forma gradual
A adolescência também é um momento importante para desenvolver habilidades relacionadas à independência.
Participar das tarefas de casa, aprender a organizar compromissos, cuidar dos próprios objetos e tomar pequenas decisões são exemplos de competências que podem ser estimuladas respeitando o ritmo de cada adolescente.
O papel da terapia durante a adolescência
O acompanhamento terapêutico continua sendo importante nessa fase, mas os objetivos podem mudar conforme o adolescente cresce e vem a necessidade de adaptar as demandas.
Além de trabalhar aspectos relacionados à comunicação e ao comportamento, as intervenções podem favorecer o desenvolvimento de habilidades sociais, a regulação emocional, a autonomia e estratégias para lidar com os desafios próprios da adolescência.
Quando existe uma atuação integrada entre família, escola e equipe terapêutica, torna-se mais fácil identificar necessidades, estabelecer objetivos e oferecer um suporte consistente em diferentes ambientes.
Conte com apoio especializado
Muitos pais acreditam que, após a infância, os desafios do autismo diminuem naturalmente. Na prática, eles apenas se transformam.
A adolescência traz novas demandas, e compreender essas mudanças faz toda a diferença para oferecer o apoio de que seu filho realmente precisa.
O acompanhamento com uma equipe interdisciplinar é muito importante. Quando diferentes áreas de desenvolvimento demandam acompanhamento, uma equipe interdisciplinar pode contribuir para uma compreensão mais ampla das necessidades do adolescente. Psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicopedagogos e outros profissionais podem atuar de forma articulada, de acordo com as necessidades identificadas na avaliação e no plano terapêutico.
Se o seu filho já realiza acompanhamento terapêutico, manter a continuidade do tratamento contribui para que os avanços conquistados sejam preservados e ampliados.
Caso ele ainda não tenha iniciado esse processo, a adolescência também pode ser um momento adequado para buscar uma avaliação e identificar quais intervenções podem favorecer seu desenvolvimento e sua qualidade de vida.
Núcleo de Autismo no Espaço CEL
No Espaço CEL, contamos com o Núcleo de Autismo, especializado no cuidado de crianças e adolescentes com TEA. Nossa equipe interdisciplinar atua de forma integrada para compreender as necessidades de cada paciente e construir um plano terapêutico individualizado, respeitando sua fase de desenvolvimento e seus objetivos.
Durante a adolescência, o acompanhamento pode contribuir para o fortalecimento das habilidades sociais, da comunicação, da regulação emocional e da autonomia, sempre com o envolvimento da família em todo o processo.
Se você tem dúvidas sobre o desenvolvimento do seu filho ou deseja entender quais intervenções podem fazer a diferença nessa etapa, buscar orientação especializada é um passo importante. Com o suporte adequado, a adolescência pode ser vivida com mais segurança, equilíbrio e oportunidades de desenvolvimento.


