

Larissa Simões
Coordenadora do Projeto Interdisciplinar do Núcleo de Autismo
Você já teve a sensação de que seu filho “segura tudo” fora de casa, mas, ao chegar em um ambiente seguro, como o lar, apresenta irritação, cansaço ou até crises?
Esse comportamento pode estar relacionado ao masking no autismo, também conhecido como camuflagem no autismo. Embora nem sempre seja fácil de identificar, entender esse processo é fundamental para acolher e apoiar o desenvolvimento da criança de forma mais sensível e eficaz.

O que é masking no autismo?
O masking no autismo é quando a criança passa a esconder ou modificar características do Transtorno do Espectro Autista como forma de se adaptar socialmente, muitas vezes aprendendo esse comportamento ao longo das suas experiências.
É como se ela estivesse constantemente ajustando seu comportamento para corresponder ao que é esperado socialmente para parecer mais alinhada com o que é esperado em determinados ambientes, como a escola, festas ou interações sociais.
Esse esforço pode incluir
Imitar comportamentos de outras crianças
Evitar demonstrar desconfortos sensoriais
Controlar movimentos repetitivos (como balançar as mãos)
Forçar contato visual
Reprimir emoções
Embora, à primeira vista, isso possa parecer um sinal de adaptação, o masking costuma exigir um esforço emocional muito grande.
Por que crianças com autismo fazem masking?
A camuflagem no autismo geralmente surge como uma forma de proteção. Muitas crianças percebem, mesmo sem que isso seja dito diretamente, que seus comportamentos podem ser vistos como “diferentes”.
Com isso, elas passam a tentar se ajustar para:
Evitar críticas ou rejeição
Serem aceitas pelos colegas
Reduzir situações de constrangimento
Atender às expectativas de adultos
Esse movimento não significa que a criança está confortável, pelo contrário. Muitas vezes, ela está apenas tentando se adaptar a um ambiente que não está preparado para acolher suas necessidades.
Quais são os sinais de masking no autismo?
Nem sempre o masking é evidente, mas alguns sinais podem ajudar os pais a identificar esse comportamento:
A criança se comporta de forma muito diferente em casa e na escola
Demonstra cansaço extremo após interações sociais
Apresenta crises emocionais ao chegar em casa
Evita falar sobre o que sente
Parece “segurar” comportamentos naturais em público
Tem dificuldade em manter esse controle por longos períodos
Esses sinais não devem ser vistos como “birra” ou “exagero”, mas como possíveis indicativos de um esforço constante de adaptação.
Quais são os impactos do masking?
O masking no autismo pode trazer consequências importantes para o bem-estar da criança, principalmente quando acontece de forma frequente e prolongada.
Entre os principais impactos, estão:
Cansaço emocional
Manter um comportamento artificial exige muita energia. Isso pode gerar esgotamento ao longo do dia.
Aumento da ansiedade
A preocupação constante em “agir certo” pode intensificar quadros de ansiedade.
Dificuldade de reconhecimento e expressão emocional
Ao esconder quem realmente é, a criança pode ter mais dificuldade em reconhecer e expressar suas próprias emoções.
Crises em ambientes seguros
É comum que a criança libere toda a tensão acumulada em casa, onde se sente mais segura, o que pode ser interpretado, de forma equivocada, como regressão ou descontrole.
Masking é mais comum em alguns casos?
O masking no autismo costuma ser mais frequente em crianças que:
Têm maior habilidade de observação e imitação
Estão em ambientes com alta exigência social
Recebem pouca compreensão sobre suas necessidades
Já passaram por situações de julgamento ou exclusão
Meninas com autismo, por exemplo, tendem a apresentar mais comportamentos de camuflagem, o que pode até atrasar o diagnóstico em alguns casos.
Como os pais podem ajudar?
O acolhimento familiar faz toda a diferença para reduzir os impactos da camuflagem no autismo.
Algumas atitudes podem ajudar muito nesse processo:
Crie um ambiente seguro
Permita que seu filho seja quem ele é, sem julgamentos. Respeitar momentos de pausa e recuperação após interações sociais também é uma forma importante de cuidado.
Observe mudanças de comportamento
Diferenças muito grandes entre ambientes podem ser um sinal importante.
Valide os sentimentos da criança
Mostre que ela não precisa esconder o que sente para ser aceita.
Evite exigir comportamentos “padronizados”
Nem sempre o que é esperado socialmente é o melhor para o desenvolvimento da criança.
Busque orientação profissional
Uma equipe especializada ajuda a entender melhor os comportamentos e orientar estratégias mais adequadas.
A importância de compreender, e não corrigir
É natural que os pais queiram preparar seus filhos para o mundo. Mas, quando falamos de masking no autismo, o foco não deve ser apenas “corrigir” comportamentos, e sim compreender o que está por trás deles.
Muitas vezes, o que parece adaptação é, na verdade, um sinal de esforço excessivo para caber em padrões que não consideram a individualidade da criança.
Promover um ambiente acolhedor, que valorize as diferenças, é essencial para o desenvolvimento emocional, social e cognitivo.
Núcleo de Autismo no Espaço CEL
No Espaço CEL, o cuidado com crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista é conduzido com base em ciência, individualidade e acolhimento.
Nosso Núcleo de Autismo conta com uma equipe interdisciplinar especializada, que atua de forma integrada para compreender cada criança em sua singularidade, incluindo comportamentos como o masking no autismo e seus impactos no dia a dia.
A partir de uma avaliação criteriosa, são estruturados planos terapêuticos individualizados, com intervenções baseadas em evidências, sempre respeitando o ritmo, as necessidades e o potencial de desenvolvimento de cada paciente.
Nosso objetivo é garantir que cada criança se sinta segura para ser quem é, fortalecendo sua autonomia, comunicação e qualidade de vida, junto de sua família.


