Por UOL

Uma placa presa ao banco traseiro de um carro de aplicativo provocou discussão nas redes sociais. Nela, o motorista informa que é autista e pede aos passageiros que evitem conversar durante a viagem. O aviso, no entanto, vai além do silêncio.

O condutor também solicita que ninguém coma ou faça as unhas dentro do veículo, pede cuidado ao fechar as portas e orienta os passageiros a conferir se não esqueceram objetos antes de sair. Por ter rinite, recomenda ainda que se evite o uso de perfumes fortes. Há também um alerta para que mudanças de destino e inclusão de paradas sejam feitas diretamente pelo aplicativo.

A lista dividiu opiniões. Parte dos usuários viu as orientações como uma maneira clara de evitar problemas e respeitar as condições de trabalho do motorista. Outros consideraram os pedidos excessivos para uma atividade que envolve atendimento ao público.

O caso abre uma discussão pouco explorada pelas próprias plataformas: como motoristas autistas ou neurodivergentes podem comunicar suas necessidades antes do início da corrida?

A reportagem não conseguiu encontrar o profissional autor da placa, mas conversou com Érick Ribeiro, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que também atua como motorista. Por mais de três anos, ele trabalhou com o transporte via aplicativo, mas há seis meses foi contratado por uma empresa para fazer entregas. Érick explica que o trabalho tem novas dificuldades, como lidar com endereços errados e comunicação ambígua por parte dos clientes, por outro lado, tem maior previsibilidade.

“Meu nível de autismo é leve, mas tenho dificuldade de me concentrar com barulho e conversas paralelas. Quando o passageiro ficava assistindo vídeos, rindo alto ou puxando assunto, aquilo me atrapalhava. Em alguns casos, pedia para abaixar o som do celular. Não tive problemas sérios, nunca levei uma multa de trânsito e nem tive reclamação de passageiro. Mas se o aplicativo tivesse uma sinalização de motorista autista, teria sido mais fácil”, conta.

De acordo com Érick o trabalho por aplicativo, apesar dos desafios, foi essencial para lhe dar experiência em uma profissão. “Não tenho faculdade, antes de atender como Uber e 99, eu tinha que viver apenas de auxílios do governo e alguns bicos. Com os aplicativos, encontrei uma profissão, ganhei autonomia e experiência, hoje tenho carteira assinada e vejo a possibilidade de ter uma família no futuro.”.

O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Ainda não há, porém, um retrato oficial de quantas estão no mercado de trabalho, muito menos de quantas dirigem por aplicativos.

Procurada, a 99 informou que não solicita informações sobre diagnóstico de TEA no cadastro dos motoristas parceiros e, por isso, não sabe quantos condutores autistas trabalham na plataforma.

A empresa afirmou que combate qualquer forma de intolerância e mantém um Guia da Comunidade com orientações sobre respeito, segurança, comunicação e responsabilidade. Disse ainda possuir um canal aberto para que os motoristas expressem necessidades e contribuam para a construção de melhores experiências no trânsito.

A Uber também foi procurada, mas não respondeu até a publicação da reportagem.

Plataformas não têm ferramenta específica

Uber e 99 já mantêm recursos de acessibilidade destinados a alguns grupos. Motoristas surdos ou com deficiência auditiva, por exemplo, podem ter essa informação apresentada ao passageiro, além de contar com ferramentas que priorizam a comunicação por mensagens.

Não há, nas informações públicas das plataformas, uma funcionalidade semelhante para que motoristas autistas comuniquem previamente necessidades relacionadas a conversas, estímulos sensoriais ou outras condições individuais.

Sem uma ferramenta dentro do aplicativo, o motorista que viralizou recorreu a uma solução analógica: imprimiu uma placa e a colocou no carro.

A ausência desse tipo de recurso chama atenção porque os aplicativos já trabalham com diferentes preferências durante as viagens. Por exemplo, o passageiro pode indicar se quer conversar ou se prefere seguir em silêncio. Não há uma opção equivalente para o condutor informar que precisa evitar conversas enquanto dirige.