Jesiane Abreu

Gestora Clínica do Núcleo de Neuroaprendizagem

Frequentemente associado ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o hiperfoco não se manifesta da mesma forma nestes dois transtornos.

No TEA, o hiperfoco costuma estar relacionado aos interesses restritos e intensos, enquanto no TDAH ele está mais ligado à dificuldade de concentrar, fazendo com que determinadas atividades altamente estimulantes prendam completamente o foco da pessoa.

Compreender essas diferenças é fundamental para evitar interpretações equivocadas, favorecer uma compreensão mais ampla sobre o funcionamento de cada transtorno e orientar estratégias mais adequadas de acompanhamento quando necessário.

O que é hiperfoco?

O hiperfoco é um estado de concentração intensa, profunda e prolongada em uma tarefa, tópico ou atividade específica. Durante o hiperfoco, a pessoa se envolve de tal forma que costuma perder a noção do tempo e se desligar quase completamente do ambiente ao seu redor.

Como o hiperfoco acontece no TEA?

No TEA, o hiperfoco aparece mais associado a interesses restritos, intensos e persistentes.

  • A pessoa pode permanecer por longos períodos profundamente envolvida em um interesse específico

  • Existe maior dificuldade para dividir ou mudar o foco quando está envolvida nesse interesse

  • Os interesses tendem a ser mais restritos, repetitivos e estereotipados.

  • Mudanças ou interrupções podem gerar sofrimento, especialmente quando o interesse está relacionado a padrões de rigidez comportamental

Vale destacar que nem toda pessoa com TEA apresentará os mesmos interesses ou o mesmo nível de intensidade, já que o espectro é diverso.

Como o hiperfoco acontece no TDAH?

No TDAH, a atenção é descrita como mais desregulada e inconsistente. A pessoa pode apresentar dificuldade para sustentar a atenção em atividades pouco estimulantes, mas conseguir uma concentração muito intensa quando algo desperta interesse, novidade ou motivação.

  • A atenção pode ficar muito concentrada em atividades de interesse

  • Pode haver dificuldade para desviar a atenção de algo envolvente para outra tarefa

  • Os interesses podem mudar rapidamente, especialmente pela impulsividade

  • A dificuldade de atenção é mais ampla e pervasiva, não restrita apenas a determinadas situações

O hiperfoco sempre é um problema?

O hiperfoco pode representar uma importante fonte de aprendizagem, criatividade, desenvolvimento de competências e aquisição de conhecimentos aprofundados.

Entretanto, ele merece atenção quando passa a comprometer outras áreas da vida, como estudos, trabalho, autocuidado, alimentação, sono, relações sociais ou participação em atividades do cotidiano.

Além disso, algumas pessoas podem apresentar intenso sofrimento quando precisam interromper uma atividade de interesse ou lidar com mudanças inesperadas de rotina.

Nessas situações, o objetivo não é eliminar o hiperfoco, mas desenvolver estratégias que promovam maior flexibilidade, organização e equilíbrio entre diferentes demandas.

Quando buscar ajuda profissional?

O hiperfoco, por si só, não confirma o diagnóstico de TEA nem de TDAH.

Entretanto, quando esse comportamento ocorre de forma persistente e está associado a dificuldades de atenção, interação social, comunicação, aprendizagem ou prejuízos significativos na rotina, é importante realizar uma avaliação especializada.

A investigação deve ser feita por uma equipe interdisciplinar, que poderá compreender o perfil de funcionamento da pessoa, identificar possíveis transtornos do neurodesenvolvimento e orientar estratégias individualizadas de intervenção.

Núcleos específicos de atendimento no Espaço CEL

O Espaço CEL conta com núcleos especializados para o acompanhamento de pessoas com TEA e TDAH.

O trabalho é realizado por uma equipe interdisciplinar, com profissionais de diferentes especialidades que atuam de forma integrada para compreender as individualidades de cada pessoa e elaborar um plano terapêutico personalizado, baseado em evidências científicas.

Quando comportamentos como o hiperfoco estão associados a prejuízos na aprendizagem, na vida social, no trabalho ou na rotina, uma avaliação especializada é fundamental para identificar suas causas e definir as estratégias de acompanhamento mais adequadas.

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